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Padre Júlio: ‘Cracolândia não é para jogar nem bomba e nem flores, é para ser humano"

06/11/2020

Sacerdote é vítima de uma nova onda de ameaças de morte. As intimidações também se voltaram contra catadores de materiais recicláveis da região da Mooca, onde o religioso atua.

Escrito por: Sitraemfa

 

Com a promessa de “acabar com a Cracolândia”, pré-candidatos à prefeitura e à Câmara Municipal de São Paulo têm usado as questões sociais do bairro Campos Elíseos, na Luz, para se projetar eleitoralmente. As ações prometidas, no entanto, repetem outras gestões na conhecida “guerras às drogas” e atingem usuários e moradores de baixa renda da região. 

 

No mês passado, a RBA já havia reportado que o uso da violência em operações policiais se intensificou após o fechamento do Atende 2. O último equipamento social que ainda oferecia alimentação, água, condições de higiene e pernoite às pessoas que fazem uso de drogas na cena de uso da Luz. Mas, de acordo com o coletivo A Craco Resiste, as ações de repressão com emprego de bombas e balas de borracha vêm aumentando ainda mais após o local passar a ser cenário de lives produzidas pelos candidatos do Patriota, Arthur do Val, o Mamãe Falei, e Carlos Alberto Alexandre Braga, que disputam ao cargo de prefeito e vereador, respectivamente. 

 

Em vídeos publicados nas redes sociais dos candidatos, eles criticam ações sociais feitas na região porque, para eles, elas “atraem o tráfico de drogas”. As gravações são feitas logo atrás das tropas da Guarda Civil Metropolitana (GCM). No último 12, por exemplo, um sábado, policiais da Rondas Ostensivas com apoio de motocicletas (Rocam) foram também filmados jogando a moto sobre pessoas que corriam, em cima da calçada, fugindo das bombas.

 

Insuflando o ódio

 

A Ponte Jornalismo ainda apontou que, meia hora antes da operação, cercada com disparos do artefato e spray de pimenta, Mamãe Falei e Braga já estavam no local. O que causou estranhamento da Craco Resiste, que considera que os dois vêm usando “da violência policial para publicidade eleitoral”. Nos vídeos, os candidatos da extrema direita também colocam como alvo de críticas o coletivo e o padre Júlio Lancellotti. Do Val chegou a acusar o líder religioso de ser “cafetão da miséria”. 

 

Em poucos dias, a reação às críticas veio com uma nova onda de ameaças de morte ao coordenador da Pastoral do Povo de Rua de Arquidiocese de São Paulo. Sem citar nomes, padre Júlio gravou na terça (15) um vídeo, denunciando que um motoqueiro passou gritando “padre filho da p…. defensor de ‘nóia’. As intimidações também se voltaram contra catadores de materiais recicláveis da região da Mooca, onde o religioso atua. Esta não é a primeira vez que o padre Júlio, “que já perdeu as contas”, é ameaçado. Mas nem por isso, a nova onda de intimidações o que deixa menos despreocupado, como conta em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual. 

 

“Isso atinge, me preocupa por causa da minha família. Quando eu tinha minha mãe, me preocupava por causa dela. Hoje tenho os meus sobrinhos, mas sobretudo a minha preocupação é a segurança dos irmãos de rua”, explica. Nesses mais de 30 anos atuando ao lado e em defesa da população em situação de rua, encarcerada e dos adolescentes privados de liberdade, o pároco lembra de quatros pessoas que “nesse tempo vinham dizer que iam me matar e porque eles desistiram ou porque não conseguiram. Isso já me aconteceu muitas vezes”, se recorda. 

 

Queremos a transformação

 

O governo, de acordo com ele, chegou a oferecer escolta policial. Mas padre Júlio garante que “a minha proteção é não maltratar os moradores de rua. Não agredi-los, tirar o rapa”. 

 

Para o padre Júlio é a “mentalidade de apartheid, de muro tão arraigada” na sociedade que “acaba gerando conflito e situações difíceis”. Ao contrário do que defendem os extremistas, o líder religioso pondera que na “Cracolândia não é para jogar nem bomba e nem flores”. “É para ser humano, (para) ir ao encontro deles”, acrescenta.

 

“Eles dizem, ‘você está mantendo’. Não, não é manter, nós queremos a transformação. Seria um resultado muito bom se todos tivessem onde morar, o que comer, se todos tivessem o que vestir. Não se combate e não se acaba com o tráfico (de drogas) matando os usuários. É preciso acabar com a corrupção, saber quem é que está ganhando em cima daquilo. Aquela área toda cercada pela polícia, a droga não chove lá e nem brota do chão. Quem é que leva? Isso é o que nós temos que responder para combater esse mercado. Porque aquilo é um mercado e alguém está ganhando muito em cima daquilo”, ressalta o padre Júlio.

 

Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a Craco Resiste levantou que a sequência de cinco operações da GCM com bombas e balas de borracha, reportadas pela RBA no final de julho, custaram R$ 12,8 mil. “Desperdício de recursos” que também vem sendo incentivado pelos candidatos. Mas que “já se mostrou mais do que ineficiente em melhorar as condições de vida no centro de São Paulo”, contesta o coletivo em nota. 

 

Candidatos serão investigados

 

Na semana passada, o Ministério Público Eleitoral em São Paulo instaurou uma notícia de fato, investigação preliminar, segundo o UOL, contra Mamãe Falei e Braga para apurar os vídeos feitos na cena de uso da Luz. Do Val é hoje deputado estadual de São Paulo. Já Braga é inspetor supervisor da GCM e foi licenciado do cargo desde 15 de agosto para disputar as eleições. 

 

O candidato também chegou a ocupar o comando da GCM entre fevereiro e março de 2018. Mas precisou pedir o afastamento do cargo quando uma ação penal por peculato e outra cível, de improbidade administrativa, se tornaram públicas. Braga foi condenado neste ano pela Justiça Federal de Assis, mas ainda cabe recurso e ele pode recorrer, aponta o site.  

 

Reconhecimento da luta do padre

 

Em paralelo, padre Júlio que está na linha de frente do enfrentamento à pandemia na população de rua porque “não poderia nesse momento se afastar daqueles que sempre cuidou durante a vida”, mesmo estando com 71 anos e, por isso, pertencer ao grupo de risco da covid-19, propõe aos candidatos “a superação da discriminação e do preconceito”. Para eles saberem que “todos nós somos irmãos”, adverte o religioso. 

 

“Eu não vou, nunca, chamar alguém de ‘cafetão da miséria’, eu sempre quero chamar a todos de meus irmãos, caminhemos juntos. Estamos de portas abertas, venham nos visitar, passe uma manhã conosco”, declara o pároco.

 

Por outro lado, os ataques também motivaram uma onda de solidariedade em apoio ao trabalho do padre Júlio. Diferentes personalidades e movimentos estão em campanha para que o coordenador da Pastoral do Povo de Rua receba o prêmio Dom Paulo Evaristo Arns, homenagem àqueles que se destacam na luta pelos direitos humanos. As indicações podem ser feitas até o dia 16 de outubro, 

 

 

 

Fonte:   https://bit.ly/351tMNu

 

 

 

 

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